O trabalho pedagógico com o componente curricular Língua Portuguesa, no contexto da Educação do Campo, deve assegurar experiências de linguagem que se articulem à realidade concreta dos sujeitos que vivem e produzem no campo, reconhecendo suas práticas culturais, modos de vida, formas de organização e de expressão. Essa proposta requer que nos encaminhamentos teórico-metodológicos, os conteúdos estejam articulados intencionalmente aos eixos temáticos da Educação do Campo, de modo a garantir que o processo educativo promova a apropriação crítica da linguagem como instrumento de participação social, construção de conhecimento e transformação da realidade.
Na Educação Infantil, o ensino de Língua Portuguesa deve pos-sibilitar à criança a vivência de múltiplas experiências de linguagem que a ajudem a compreender sua função social, expressando-se com clareza e intencionalidade por meio de gestos, expressões faciais, balbucios, palavras e outras formas de comunicação verbal e não verbal. A linguagem, compreendida como prática social desde os primeiros anos de vida, deve ser mediada em contextos que dialoguem com as vivências do campo, favorecendo a escuta, a oralidade, a observação e a curiosidade diante das práticas de leitura e escrita presentes no cotidiano das comunidades camponesas. Assim, a criança é inserida em um ambiente significativo e conectado ao seu território, valorizando os saberes do campo.
No Ensino Fundamental - Anos Iniciais, o ensino da Língua Portuguesa tem como finalidade garantir ao aluno a compreensão do caráter dialógico e interacional da linguagem, por meio de ações efetivas de uso e reflexão sobre a língua em práticas de oralidade, leitura/escuta, escrita/produção textual e análise linguística/semiótica. Tais práticas devem ser desenvolvidas com base em textos de diferentes gêneros discursivos e campos de atuação social, promovendo a apropriação do sistema de escrita alfabética e a capacidade de produzir e interpretar sentidos em contextos reais.
Na educação do campo, esse processo se potencializa quando os conteúdos escolares dialogam com os saberes e as experiências das comunidades camponesas, fortalecendo a identidade dos sujeitos e ampliando sua inserção crítica no mundo letrado.
Educação Infantil
Sugestões de encaminhamentos
Trabalho: divisão social e territorial
- Desenvolver rodas de conversa com base em experiências familiares, promovendo a escuta e oralidade sobre o trabalho no campo;
- Trabalhar narrativas orais (histórias, relatos, reconto) com temática do trabalho agrícola ou doméstico;
- Explorar o vocabulário ligado ao mundo do trabalho em atividades de categorização e registro coletivo em cartazes e listas.
Cultura e identidade
- Valorizar as manifestações culturais da comunidade em práticas de linguagem: cantigas, parlendas, travalínguas e histórias;
- Promover o reconto oral de lendas locais e a produção textual baseada na cultura camponesa;
- Trabalhar com o nome próprio e o sobrenome da família como ponto de partida para identificação e valorização da identidade.
Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável
- Desenvolver situações de fala e escuta sobre experiências de ida à cidade, visitas a feiras ou mercados, com registros orais e escritos;
- Trabalhar a leitura de imagens e produção de narrativas orais a partir de fotos de espaços do campo e da cidade;
- Produzir coletivamente cartazes com palavras e expressões que diferenciem os espaços e as práticas sociais nos dois contextos.
Organização política, movimentos sociais e cidadania
- Criar oportunidades para os alunos participarem de decisões coletivas sobre a rotina escolar, por exemplo, registrando oralmente os combinados;
- Estimular a produção de textos dos diferentes gêneros discursivos, explorando sua função social, como convites e agradecimentos para eventos escolares com a comunidade;
- Trabalhar histórias que problematizem relações de justiça, cooperação e respeito, promovendo reflexão oral mediada.
Ensino Fundamental — Anos Iniciais
Sugestões de encaminhamentos
Trabalho: divisão social e territorial
- Desenvolver atividades de leitura e produção textual com base em entrevistas sobre o trabalho no campo;
- Explorar gêneros discursivos, como receita, manual, bilhete, relacionando ao cotidiano da vida no campo;
- Promover análise linguística a partir de textos que envolvam o campo semântico do trabalho.
Cultura e identidade
- Trabalhar textos orais e escritos da tradição popular local como objeto de leitura e produção;
- Desenvolver autobiografias e relatos familiares que promovam reflexão sobre a identidade camponesa;
- Analisar a variação linguística da comunidade, valorizando o modo de falar como expressão cultural.
Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável
- Propor leitura e produção de textos informativos sobre questões do campo e suas relações com a cidade;
- Trabalhar interpretação de gráficos e notícias sobre a circulação de produtos, mobilidade e serviços.
Organização política, movimentos sociais e cidadania
- Promover a leitura de documentos e textos produzidos por movimentos sociais do campo, com mediação;
- Estimular a produção de gêneros discursivos com situações reais da comunidade, explorando sua função social;
- Realizar atividades coletivas no espaço escolar, registradas por escrito, fortalecendo a apropriação da linguagem em seu uso social.
Dessa forma, o ensino da Língua Portuguesa para a Educação do Campo, deve considerar a realidade dos sujeitos camponeses, seus modos de vida, saberes e práticas culturais. Ao articular os eixos temáticos da Educação do Campo e desenvolver práticas de linguagem ancoradas nos gêneros discursivos e nos contextos sociais de uso, garante-se não apenas o domínio do sistema linguístico, mas, sobretudo, a formação de leitores e produtores de textos críticos, conscientes e socialmente participativos. O trabalho com a linguagem, portanto, deve ser intencionalmente planejado para fortalecer a identidade dos alunos e ampliar sua capacidade de leitura de mundo e de transformação da realidade que os cerca.



