O ensino da Língua Espanhola na Rede Pública Municipal de Cascavel insere-se em um contexto sociocultural e geográfico singular. Situado na região Oeste do Paraná, o município integra a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, onde o contato linguístico entre português e espanhol é constante e multifacetado. A escolha por esse idioma como parte da formação dos alunos nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental justifica-se não apenas por razões econômicas ou comerciais, mas, principalmente, pela dimensão cultural, histórica e política da América Latina, onde se compartilham processos de colonização, resistência e organização popular.
O ensino de línguas estrangeiras, nesse contexto, deve ser compreendido como uma forma de ampliar horizontes culturais e de promover o exercício da cidadania intercultural. Ao aprender o espanhol, os alunos são convidados a refletir sobre suas próprias formas de expressão, a desenvolver a escuta sensível e a oralidade significativa, e a entrar em contato com outras realidades culturais que dialogam com sua própria. A aprender uma nova língua é “apropriar-se de novas lentes para mirar o mundo” (GOETTE-NAUER, 2005, p. 64).
Na Educação do Campo, essa perspectiva ganha contornos ainda mais relevantes. Ensinar espanhol a crianças camponesas é possibilitar o acesso a uma linguagem internacional que aproxima os povos latino-ameri-canos, mas também é reconhecer e valorizar a cultura local, os saberes tradicionais e a experiência coletiva do trabalho, do território e da identidade camponesa. É uma oportunidade de fortalecer a autoestima, desenvolver a criticidade e ampliar os meios de comunicação com o mundo. Assim, o ensino da Língua Espanhola torna-se mais do que um conteúdo: torna-se uma ferramenta de emancipação e pertencimento.
Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, o ensino de Língua Espanhola deve respeitar o processo de alfabetização em língua materna e, ao mesmo tempo, possibilitar a construção gradual de competências de escuta, fala, leitura e escrita em língua estrangeira. Na escola do campo, isso significa incorporar as experiências cotidianas, os conhecimentos tradicionais e a vivência coletiva dos estudantes como ponto de partida para o aprendizado da nova língua.
Esta ação deve estar vinculada as práticas culturais do campo, às relações com os países vizinhos e à compreensão crítica dos contextos latino-americanos. Mais do que ensinar estruturas linguísticas, trata-se de favorecer a leitura de mundo e o reconhecimento de si como sujeito histórico inserido na diversidade dos povos da América Latina. Com isso, o ensi-no da Língua Espanhola contribui para a formação de sujeitos autônomos, conscientes de seus direitos e capazes de dialogar com diferentes realidades culturais.
Ensino Fundamental — Anos Iniciais
Sugestões de encaminhamentos
Trabalho: divisão social e territorial
- Explorar vocabulários relacionados ao cotidiano do trabalho camponês (ferramentas, ciclos de produção, clima, tempo e rotina).
- Propor apresentações orais, em espanhol, sobre as atividades de trabalho das famílias e comunidades;
- Trabalhar gêneros como canções, poemas e ditados populares que tematizem o mundo do trabalho no campo.
Cultura e identidade
- Relacionar festas populares do campo com festividades hispa-no-americanas, promovendo atividades comparativas;
- Produzir murais, vídeos e registros escritos com palavras e ex-pressões em espanhol ligadas à identidade camponesa;
- Estudar as variantes do espanhol nos países do MERCOSUL, especialmente nas regiões fronteiriças;
Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável
- Desenvolver projetos bilíngues sobre a produção e circulação de alimentos, com vocabulário temático em espanhol;
- Ler e interpretar textos informativos sobre meio ambiente e agricultura familiar;
- Trabalhar o papel das comunidades do campo na produção de alimentos saudáveis, com base em debates e registros escritos.
Organização política, movimentos sociais e cidadania
- Estudar, em espanhol, símbolos e expressões dos movimentos sociais camponeses (bandeiras, canções, slogans).
- Produzir textos, cartazes e apresentações sobre direitos, dignidade, trabalho e território;
- Apresentar lideranças históricas da América Latina, por meio de materiais audiovisuais e linguagens acessíveis.
Nesse contexto, o componente curricular de Língua Espanhola cumpre seu papel de ampliar o repertório linguístico e cultural dos alunos, promovendo não apenas o domínio de uma nova língua, mas a formação de sujeitos históricos e críticos, preparados para dialogar com o outro, compreender sua realidade e transformá-la.



