A educação é a forma cultural de transmitir às novas gerações os conhecimentos elaborados ao longo da história, na relação dos homens com o meio, com seus pares e com a natureza. Sob a perspectiva da Teoria Histórico-Cultural e da Pedagogia Histórico-Crítica, os processos de transmissão e de apropriação do conhecimento são indissociáveis: apesar de distintos, estão imbricados, pois toda transmissão tem por finalidade a apropriação desse saber por um interlocutor.
Processos de transmissão e apropriação do conhecimento
A escola tem o papel de possibilitar o acesso das novas gerações ao mundo do saber sistematizado, do saber metódico e científico. Ao assumir essa função social, atua diretamente na formação e no desenvolvimento dos alunos — o que torna imprescindível o planejamento do processo de ensino, já que não é qualquer forma de transmissão do conhecimento sistematizado que leva à sua apropriação como meio de compreensão da realidade objetiva (Saviani, 2000). Como afirma Leontiev:
[...] O processo de apropriação efetua-se no desenvolvimento das relações reais do sujeito com o mundo. Relações que não dependem nem do sujeito nem de sua consciência, mas são determinadas pelas condições históricas concretas, sociais, nas quais ele vive e pela maneira como a sua vida se forma nestas condições.
As formas de ensino mantêm sua vinculação com o método de ascensão do abstrato ao concreto, considerando a situação social de desenvolvimento do sujeito e a especificidade do conteúdo a ser ensinado, de modo a organizar o ensino contemplando o movimento concreto-abstrato-concreto:

O ponto de partida está centrado na zona de desenvolvimento real — a experiência objetiva vivenciada pelo sujeito. Os instrumentos (ferramentas) e signos (símbolos) produzidos pela humanidade estão, inicialmente, na cultura, de modo externo ao sujeito; ao serem apropriados na interação com pessoas que já os dominam (no plano interpsíquico), passam a fazer parte da atividade interna do sujeito, tornando-se intrapsíquicos. O conhecimento cotidiano da criança é tomado como ponto de partida pelo professor, que o correlaciona com os conceitos científicos — ponto de chegada dos processos de ensino e de aprendizagem.
Para a efetivação de uma prática pedagógica que permita esse desenvolvimento, deve-se considerar a articulação entre os elementos conteúdo–forma–sujeito:
Conteúdo
O trabalho com os conhecimentos historicamente sistematizados, por meio de uma organização sequencial dos conhecimentos convertidos em conteúdos escolares.
Forma
Os encaminhamentos metodológicos e as estratégias e ações adequadas para explorar os conteúdos.
Sujeito
A quem se destina o ensino. É fundamental o entendimento da especificidade do desenvolvimento desse sujeito em cada período e as máximas condições para promover aprendizagens.
As ações de ensino fundamentadas na tríade devem estar organizadas intencionalmente, partindo da necessidade do aluno e gerando motivos que promovam a aprendizagem de modo significativo. Cada período do desenvolvimento humano é caracterizado por uma atividade principal — “[...] aquela em conexão com a qual ocorrem as mais importantes mudanças no desenvolvimento psíquico” (Leontiev, 2001, p. 122) —, e é preciso levar em conta a periodização e a situação social de desenvolvimento em que o estudante se encontra. Para isso, é necessário definir criteriosamente os encaminhamentos teórico-metodológicos, que não são aleatórios e devem estar elencados no plano de ensino:

Para a elaboração do plano de ensino, os professores terão como suporte o Caderno Pedagógico com Possibilidades de Ações de Ensino para a Educação do Campo, com uma variedade de estratégias intencionais a serem implementadas no trabalho pedagógico, no sentido de promover uma educação do campo de qualidade, vinculada à cultura e ao trabalho no campo. As ações de ensino precisam estar alicerçadas naquilo que é nuclear do trabalho escolar — a socialização do conhecimento científico, artístico e filosófico. Quando se trata da especificidade da educação do campo, o fundamental é inserir o campo como elemento articulador do trabalho:
A escola do campo pode contribuir com a valorização da vida no campo, como um instrumento útil para a manutenção da juventude, das famílias, da cultura dos povos do campo, desvelando que a dicotomia real não é entre campo e cidade, mas entre capital e trabalho.
Organização do trabalho pedagógico para a Educação do Campo
A organização do trabalho pedagógico para a Educação do Campo implica o desenvolvimento de uma prática verdadeiramente vinculada à cultura e ao trabalho dos sujeitos do campo, de forma que eles se sintam participantes efetivos do processo de ensino e de aprendizagem, por meio de estratégias intencionais. A valorização dos saberes na Educação do Campo não distingue as etapas e modalidades daquelas ofertadas nas escolas urbanas; é imprescindível, porém, realizar adaptações nas estratégias de organização, considerando as características específicas de cada localidade e articulando os saberes historicamente acumulados pela humanidade com aqueles presentes na vivência dos alunos. Nesse sentido, as DOEBEC estabelecem:
Art. 5º As propostas pedagógicas das escolas do campo, respeitadas as diferenças e o direito à igualdade e cumprindo imediata e plenamente o estabelecido nos artigos 23, 26 e 28 da Lei 9.394, de 1996, contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia.
Para que a realidade das Instituições de Ensino do Campo saia do discurso e constitua a práxis, os professores, alunos e a equipe administrativa e pedagógica poderão organizar um portfólio, dossiê ou inventário da realidade — um documento contendo as principais características do entorno da escola e da comunidade escolar. Os professores terão como suporte o livro com o Histórico das Instituições de Ensino do Campo da Rede Pública Municipal de Ensino de Cascavel. As ações pedagógicas, além de estarem em consonância com o Currículo Municipal (Volume I — Educação Infantil e Volume II — Anos Iniciais), precisam estar ligadas à realidade: o campo precisa ser o elemento articulador dos componentes curriculares.

A articulação curricular implica que o professor faça a intersecção, a interrelação de diferentes conteúdos e componentes curriculares, a partir do elemento articulador. Portanto, o professor parte da realidade do aluno do campo, compreende os saberes presentes nesse real e articula-os aos conhecimentos sistematizados. Como a educação do campo é uma modalidade cultural, os planejamentos devem levar em conta a realidade dos alunos, o entorno da escola, os eixos temáticos e a articulação curricular.



