Os eixos temáticos são o conjunto de temas centrais problematizados de acordo com os conteúdos escolares trabalhados na relação com a concepção de educação do campo presente nesta Diretriz. Eles norteiam a abordagem didático-pedagógica com a práxis — teoria e prática —, direcionando a aprendizagem discente dos conteúdos trabalhados com intencionalidade.
Os encaminhamentos metodológicos são o conjunto de ações, passos, procedimentos e estratégias mais adequados ao processo de apropriação e construção das aprendizagens, que o professor planeja com intencionalidade, na relação objetivo-conteúdo. Devem contemplar ações que mobilizem as funções cognitivas e afetivas do aluno — comparar, analisar, investigar, identificar, deduzir, induzir — e estabelecer relações entre os conteúdos estudados e a realidade vivenciada, de modo que ele possa intervir nela. Os eixos temáticos, no que diz respeito à educação do campo, são os mesmos apresentados pelas DCE do Estado do Paraná:
Trabalho: divisão social e territorial
O trabalho como atividade humana que transforma a natureza e produz cultura, e a divisão social e territorial da produção.
Cultura e identidade
A cultura como produção humana que identifica os povos do campo e dá sentido à sua vida, vinculada aos conhecimentos científicos.
Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável
A relação entre campo e cidade, o êxodo rural, a questão agrária e a dimensão socioambiental da produção.
Organização política, movimentos sociais e cidadania
A organização política para além do voto, os movimentos sociais do campo e a cidadania como pertencimento.
Trabalho: divisão social e territorial
Os pressupostos da Pedagogia Histórico-Crítica compreendem o ser humano como um sujeito histórico que, na relação social com os demais, produz culturalmente os conhecimentos — o que amplia o domínio sobre o mundo natural por meio do trabalho, que transforma a natureza e o próprio ser humano, promovendo o seu desenvolvimento. O trabalho é uma atividade humana que produz riquezas; contudo, na sociedade capitalista, esses bens são apropriados de forma desigual, deixando a classe trabalhadora à margem da apropriação daquilo que ela mesma produz.
Por isso, um dos eixos temáticos da educação do campo é o Trabalho: divisão social e territorial, que permite a reflexão sobre a sociedade capitalista, sua organização produtiva e seus modos de produção, tendo como ponto de partida as atividades humanas produtivas desenvolvidas pelos povos do campo. Ao conhecer como o campo funciona e como se desenvolvem as atividades da agricultura, da indústria e dos serviços, compreendem-se também as relações sociais nos diferentes territórios — lembrando que existem outras formas de organização, pensadas de modo diferente pelos povos indígenas, assentados e campesinos, que não visam somente ao aumento da produtividade ou à geração de lucro.
Cada país, estado e município tem sua organização e função territorial historicamente construída. O Estado do Paraná tem sua organização voltada para a produção agrícola, agrária e pecuária. Estudar como se dá a divisão territorial do trabalho, a produção e a circulação dos produtos, a partir da investigação e da pesquisa, possibilita definir os encaminhamentos metodológicos para o trabalho com os conteúdos em cada etapa, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental, levando à compreensão dos conceitos de trabalho, divisão social e territorial, modo de produção e classes sociais.
Cultura e identidade
A cultura, considerada como uma produção humana construída na relação social entre os homens e a natureza, é o que caracteriza um grupo social: toma forma nos comportamentos, costumes, tradições, linguagem, comidas, religião, música, artes e vestimentas. É essa diversidade que identifica os grupos, formando a identidade do povo brasileiro. A cultura e a identidade dos povos do campo — homens, mulheres, jovens e crianças — são construídas de acordo com suas vivências, lutas e relações de produção.
Um desafio está posto à educação do campo: considerar a cultura dos povos do campo em sua dimensão empírica e fortalecer a educação escolar como processo de apropriação e elaboração de novos conhecimentos.
Os conteúdos trabalhados nas escolas do campo devem conter a sua cultura, presente nas práticas pedagógicas, pois esta dá sentido à vida da população do campo — vinculada aos conhecimentos científicos universais necessários à emancipação dos alunos. Faz-se necessário que as práticas pedagógicas superem a forma estereotipada e preconceituosa com que muitas vezes o homem do campo é representado. O ponto de partida dos conteúdos escolares nas escolas do campo é a sua realidade, e o ponto de chegada deve ser a compreensão da diversidade social, étnica, racial e sexual da sociedade brasileira, superando a visão da cultura europeia ou norte-americana como superior à brasileira.
Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável
No Brasil, o êxodo rural — a migração das pessoas que viviam no campo para a cidade — foi crescente nas décadas de 1960 a 1980, com o processo de industrialização. Isso produziu uma reorganização urbana e desencadeou a chamada “modernização agrícola conservadora”, na qual a distribuição agrária não foi alterada. Com o crescimento da população nas cidades, aumentaram as reivindicações por serviços sociais — educação, saúde, transporte, creches —, e o êxodo provocou mais desigualdades sociais, marginalização e desemprego.
Hoje, a atividade do setor agrícola concentra-se nas mãos de donos de grandes extensões de terra, responsável por um enorme volume de exportações de commodities. Pequenas extensões são cultivadas pela população do campo, geralmente pelos próprios membros da família, que têm neste trabalho a sua fonte de subsistência. A mecanização e a modernização (máquinas, equipamentos, defensivos, técnicas) vêm substituindo a mão de obra, transformando o espaço geográfico e a divisão territorial do país.
A interdependência entre campo e cidade pode ser problematizada a partir das necessidades básicas do ser humano — alimentação e acesso à água potável. A alimentação saudável torna-se, além da atividade produtiva do campo, uma importante atividade de desenvolvimento sustentável, incentivando a produção agroecológica, que preserva e evita o uso de produtos que agridam o ambiente. Compreender que o campo e a cidade não são somente espaços de produção, mas também de vida, contradiz o esvaziamento do campo e a ideia de uma urbanização total.
Organização política, movimentos sociais e cidadania
A organização política é um sistema que regula as relações entre os grupos e seus membros, que compartilham ideias comuns. Ela não pode ser restrita à relação político-partidária: quando os grupos se organizam em movimentos sociais, por meio da educação política, transformam os espaços políticos para além do ato do voto, compartilhando a gestão democrático-participativa e lutando pela efetivação de políticas públicas e pela garantia de direitos. Política e cidadania devem ser compreendidas de forma associada — o exercício político da democracia assegura a cidadania, isto é, o sentido de pertencimento dos sujeitos ao seu país, estado e cidade.
No campo, os povos organizam-se para reivindicar melhores condições de trabalho, a divisão da terra, a reforma agrária e a delimitação das terras dos povos indígenas. Na escola, a organização política perpassa pela gestão democrática, nas relações com a comunidade escolar e na luta pelos direitos dos alunos. É preciso resgatar as lutas e os conflitos necessários para que o direito à educação seja garantido aos filhos dos trabalhadores, do campo ou da cidade — por isso a legislação e os documentos que garantem essa educação precisam ser estudados, discutidos e compreendidos por todos os que fazem parte da escola e da comunidade escolar.



