Geografia
Município de Cascavel

Geografia

Diretrizes para a Educação do Campo · Cascavel — Paraná

O trabalho pedagógico com o componente curricular Geografia, no contexto da Educação do Campo, deve contribuir para a formação de sujeitos capazes de compreender, analisar e intervir nos arranjos espaciais em que vivem. A Geografia, como ciência que estuda o espaço produzido pelas relações sociais ao longo da história, tem papel fundamental na leitura crítica da realidade, na valorização dos territórios camponeses e na compreensão dos processos de transformação do espaço em múltiplas escalas.

Nesta perspectiva, a Geografia deve ser ensinada como uma ciência dinâmica, que relaciona os elementos naturais e sociais do espaço, promovendo o entendimento das contradições presentes nas paisagens, nos territórios e nas relações entre campo e cidade. Isso implica superar a abordagem descritiva e fragmentada da Geografia tradicional, valorizando o raciocínio geográfico como uma forma de compreender a produção social do espaço, os conflitos e interesses que o atravessam e as possibilidades de sua transformação a partir da ação humana consciente.

Na modalidade de Educação do Campo, essa proposta exige que nos encaminhamentos teórico-metodológicos, os conteúdos estejam articulados intencionalmente aos eixos temáticos da Educação do Campo, de modo a assegurar que os alunos reconheçam seu território como espaço de vida, resistência e produção de saberes.

Na Educação Infantil, o trabalho pedagógico deve assegurar à criança oportunidades de vivenciar, interpretar e ampliar os conhecimentos geográficos a partir da realidade concreta dos territórios camponeses. A observação da natureza, o contato com os modos de vida locais e as ex-periências espaciais cotidianas contribuem para o desenvolvimento da percepção e da compreensão do espaço vivido. Nessa perspectiva, o ensino de Geografia deve valorizar a ludicidade e as práticas culturais do campo, permitindo que o aluno compreenda os modos como os grupos sociais habitam e transformam os espaços ao longo do tempo. Assim, o território camponês torna-se fonte de significação e pertencimento, fortalecendo os vínculos afetivos e simbólicos com o lugar em que vive.

Para o Ensino Fundamental - Anos Iniciais, o ensino de Geografia deve garantir aos alunos do campo a alfabetização geográfica e cartográfica, promovendo mediações que possibilitem compreender os arranjos espaciais como produções sociais e históricas. A realidade camponesa, os modos de vida, o trabalho e as formas de organização comunitária devem ser considerados como ponto de partida para a análise crítica das paisagens, territórios e relações entre natureza e sociedade. Ao reconhecer e valorizar os saberes produzidos nas comunidades do campo, o ensino de Geografia deve favorecer a apropriação dos conceitos geográficos fundamentais, articulando os conhecimentos científicos às experiências locais e à leitura crítica da realidade, fortalecendo a autonomia dos sujeitos do campo em seus territórios.

Educação Infantil

Sugestões de encaminhamentos

Trabalho: divisão social e territorial

  • Propor brincadeiras de papéis sociais como, fazde-conta de feiras, hortas e rodas de conversa para conhecer os trabalhos realizados pelas famílias dos alunos, valorizando os modos de vida no campo;
  • Criar mapas afetivos com base nos caminhos que o aluno percorre de casa até a escola, utilizando elementos da paisagem local como, cercas, rios, árvores e plantações;
  • Estimular o contato sensorial com elementos do ambiente natural do campo (sementes, terra, água, palha, folhas), associando-os ao fazer das famílias e ao ciclo do trabalho com a terra.

Cultura e identidade

  • Promover contação de histórias, lendas, causos e experiências contadas por avós, vizinhos ou integrantes da comunidade, criando vínculos com a tradição do campo;
  • Investigar com os alunos os nomes dos lugares locais (rios, trilhas, propriedades, comunidades) e registrar suas histórias e significados por meio de desenhos, maquetes ou colagens;
  • Realizar rodas de conversa e vivências práticas sobre festas da comunidade, explorando suas comidas, músicas, vestes e modos de organização coletiva.

Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável

  • Representar com os alunos, por meio de dramatizações, maquetes ou desenhos, o percurso dos alimentos desde a produção até ao mercado;
  • Realizar visitas a feiras e pontos de comercialização da produção da comunidade, discutindo o papel dos agricultores no abastecimento alimentar;
  • Trabalhar, por meio de jogos ou brincadeiras de separar/organizar, o que é produzido no campo e o que vem da cidade, discutindo os saberes e técnicas envolvidos em cada um.

Organização política, movimentos sociais e cidadania

  • Criar combinados e regras coletivas da turma, fortalecendo o exercício da escuta, da fala e da decisão coletiva;
  • Apresentar símbolos de movimentos sociais do campo, bandeiras e músicas, contextualizando sua presença na comunidade;
  • Realizar atividades de cuidado com o ambiente escolar e o território, fortalecendo o vínculo com o espaço coletivo.

Ensino Fundamental — Anos Iniciais

Sugestões de encaminhamentos

Trabalho: divisão social e territorial

  • Mapear coletivamente as atividades produtivas locais (agricultura familiar, agroecologia, pequenos comércios), identificando os sujeitos envolvidos, formas de uso da terra e relações sociais que estruturam a produção;
  • Analisar impactos socioambientais decorrentes do uso e apropriação da terra, relacionando-os à história da ocupação do território e às lutas sociais vinculadas ao acesso à terra e moradia;
  • Estudar os trajetos de escoamento da produção local, considerando desafios de transporte, infraestrutura, logística e as inter-relações campo-cidade em diferentes níveis escalares.

Cultura e identidade

  • Pesquisar nomes de lugares e seu significado histórico, geográfico e simbólico para a comunidade, compreendendo-os como expressão da memória e da identidade territorial.
  • Realizar rodas de conversa, entrevistas e vivências para registrar músicas, danças, receitas e modos de plantar, articulando saberes tradicionais e conhecimentos científicos.
  • Produzir murais, jornais ou podcasts escolares com relatos orais e escritos das famílias camponesas, fortalecendo o pertencimento e a valorização da memória coletiva.

Interdependência campo-cidade, questão agrária e desenvolvimento sustentável

  • Investigar a origem dos alimentos da merenda escolar e sua relação com produtores locais, analisando a distribuição e circulação em diferentes escalas;
  • Estudar impactos da monocultura e do agronegócio na organização do espaço e na vida no campo, considerando aspectos ambientais, sociais e econômicos;
  • - Mapear e divulgar experiências agroecológicas, coletivas e cooperativas da região, valorizando práticas sustentáveis e estratégias de resistência camponesa.

Organização política, movimentos sociais e cidadania

  • Investigar coletivamente desafios enfrentados pela comunidade, relacionando-os às políticas públicas e às ações coletivas voltadas ao desenvolvimento local e à justiça socioespacial;
  • Estudar a história e o papel dos movimentos sociais do campo na conquista de direitos e na transformação das paisagens, valorizando diferentes formas de organização popular;
  • Desenvolver e participar de ações educativas, campanhas e atividades que articulem escola e comunidade na defesa de direitos e no fortalecimento da cidadania, considerando a diversidade cultural e territorial.

Dessa forma, o ensino de Geografia na Educação do Campo deve estar fundamentado na realidade concreta dos territórios camponeses, considerando a totalidade das relações sociais, históricas e espaciais que os constituem. É necessário valorizar os saberes locais e articulá-los aos conceitos científicos historicamente produzidos, possibilitando que os alunos compreendam a produção e organização dos arranjos espaciais em diferentes escalas. Ao relacionar as vivências cotidianas às categorias e princípios do raciocínio geográfico, o componente curricular contribui para a formação de sujeitos críticos, capazes de interpretar e intervir na realidade, fortalecendo a leitura de mundo a partir do lugar em que vivem e reconhecendo o território como espaço de existência, resistência e produção de saberes.